terça-feira

A primeira página de ontem, ou mais e melhores crônicas de uma morte anunciada.



Saber das fofocas de vizinhança é a virtude de acompanhar o jornal local. É por isso que as cidades que me adotam ganham uma filha interina: eleger o jornal daquela cidade em que estou me dá a leitura de muitas graças para além das mazelas padrão. E, boa curitibana que sou, logo que chego à terrinha espio assídua à Gazeta, que por tantas madrugadas já foi impressa pelas mãos de meu avô Alpheu e agora começa a agonizar seu calvário próprio.

Temos dias com notícias que dão o que pensar. Motivada pelo espetáculo às avessas do futebol de domingo, pela internet vi, ontem, muitas primeiras páginas especiais. Até agora, porém, a que me tirou o sono foi mesmo a da velha Gazeta. Ao longo do dia, antes, depois do travesseiro, ainda hoje pela manhã, antes de descartar as páginas do dia anterior, tentei estabelecer analogias possíveis entre a crucificação vergonhosa do futebol brasileiro e a descida da cruz de Rubens, ou a de Jean Baptiste Jouvenet, a de Lorenzo Monaco... que imediatamente me ocuparam a cabeça com a imagem oferecida e a relação sugerida pela fotografia estampada em meia página. Uma única leitura, porém, foi possível.

Em contraste com a beleza poética das imagens que inspiraram a manchete (fotografia inclus), nada há de admirável na atitude de nossas torcidas. É apenas vergonhoso e desanimador. Um país que consegue propor conexões imagéticas nesse grau não poderia e não pode ser o mesmo que protagonizou o episódio de domingo. Uma pena.

Sigo pensando em Rubens e na analogia com a fotografia de Albari Rosa, e no acontecimento do final de semana ao folhear, mais uma vez, as páginas seguintes. No mesmo caderno, em meio a reunir o antagonismo desastre e esporte, constatar a negligência com o patrimônio público, noticiar mais e mais o infindável problema da aviação comercial e lamentar o limitado alcance da política habitacional, só pode dar gosto mesmo a matéria sobre a ingestão sem culpa de gordura. Perdidos entre tantos pecados, melhor mesmo ficar com o que nos é absolvido.

E, mudando de caderno, decido que é momento de reler a coluna de André Gonçalves. É tudo muito ruim.