segunda-feira

Eu tenho azar com caminhão de lixo.

Deve ser praga ou macumba, caminhões de lixo me perseguem.

E eu odeio isso profundamente. Não que eu tenha algo contra o caminhão ou o lixeiro, ao contrário, taí, sim, serviço e profissão (e lá alguém escolhe trabalhar com isso?) que prezo por ser indispensável, dura de fazer. Sem a dita viatura seria difícil livrar-nos de toda porcaria que produzimos no mundo em tão pouco tempo. É espantoso constatar que em muitos lugares a colheita de nosso torpe emaranhado de orgânico e reciclável não seja realizada com mais frequência.
Apesar disso, é o caminhão de lixo aparecer, nem que por uma vezinha só, naquela semana, e bingo!, lá estarei eu, pertinho dele, usufruindo o momento. Por que, meu Deus, por quê? Não há congestionamento que não me pregue peça, esteja eu de carro (sempre atrás!) ou a pé (sempre ao lado!).

Nas temporadas de verão na praia, quando adolescente, eu costumava memorizar a hora exata em que o cara passava na avenida e tchibum!, mergulhava no mar, na piscina, momento de testar a resistência respiratória embaixo d’água.
Em Paris, meus fins de tarde na ‘rive gauche’ de alguns sempre contavam com o triste desfecho: não havia caminhada ou ida ao supermercado sem que eu fosse perseguida pela criatura. Eu e o caminhão em sintonia, unidos, sempre no mesmo sentido.

Em Ankara, o indefectível rugido da coleta na madrugada anuncia que é chegada a hora de dormir. Não me anima deitar antes disso, sei que posso acordar com a serenata. Ok, melhor que Paris, onde o dito cujo passava assim, desinibido mesmo, antes das cinco da matina e, de todas as janelas da quadra, era embaixo da minha, da minha!, que ele gostava de parar.
Em algum lugar por aí, bate-papo na calçada? Claro, de qualquer canto do mundo o caminhão vai escolher parar ao nosso lado: quem compartilhou comigo a experiência confirma o azar que tenho – a vizinha, uma amiga que eu não via há tempos ou aquele menino lindo por quem eu era apaixonada... terrível, constrangedor, e tudo bem, confesso, a simbiose entre os caminhões de lixo do mundo e eu até descontrai e provoca risos. Geralmente amarelos.

Sim, porque como se, acompanhado do perfume fresco de lírios brancos, não bastasse o ruído habitual para lembrar sua existência – no meu caso, proximidade, sempre que um veículo desses pinta na redondeza, estará com algum problema. Como algum barulhinho irritante extra, repetitivo, recorrente. Se a cidade-luz oferece suas sinfonias, ah, Paris, lembranças da harmônica orquestra de uma engrenagem estridente que nunca, nunca se consertou... e no caminhão especial para vidros. Cidade organizada coleta vidro separadamente das outras porcarias que produzimos. Só não precisava ser antes de o sol raiar. E bem na minha janela. E podiam ao menos ter consertado a engrenagem, já aliviava. E... bem, é.
Há situações que me fazem imaginar um filme-experiência, sentir-me como protagonista de um Truman Show, avaliada, confrontada para o prazer de uma platéia da qual não tenho conhecimento. Pois então. Fino da bossa, sanção da perseguição, mandinga, feitiço, audiência: mesmo em autoestrada na Turquia caminhão de lixo já me perseguiu. Quase não acreditei. Até aqui? Ops, não é apenas um. Vejo vários. Uma carreata de caminhões de lixo, enfileirados, um após do outro, distanciamento milimétrico, como que para me testar. Seria alucinação?

Antes que urrasse meu espanto, porém, fui advertida pelos primeiros: novinhos em folha! Sem cheiro, sem engrenagem gasta. Sem corrida para fechar a entrada de ar, sem pressa de subir a janela. Sem vestígio do desespero que me causa me flagrei, estarrecida mas plácida, a observar o desfile pelo retrovisor. E, para compaixão final, constato: todos mini-caminhões, pequenininhos mesmo, como filhotinhos recém-nascidos. Ah, tenho pena de miniaturas, realizo uma espécie de personificação da criatura. Resultado, reação antagônica.
Relaxei, curti a cena insólita, quase comovida, fotografei. Para remissão total de minha vertigem, como num ápice de enredo criado sob medida para a celebridade, poucos instantes depois deparo com um dos integrantes da frota, tombou na estrada, coitadinho, ali ficou. Pobre criatura, e um nó se forma na minha garganta.

É, tenho um problema muito sério com caminhões de lixo. Dessa vez me pegaram de jeito.
 

Mimetizados: muito à vontade entre carros populares, mini-caminhões de lixo desfilam na estrada perto de Izmir.