quinta-feira

A romã nossa de cada réveillon. Ou o réveillon nosso de cada romã.


Fazer da romã parte integrante de sua alimentação diária não é algo que se considere sensato, nem possível, até que seu dermatologista o aconselhe vivamente – você precisa combater os tais radicais livres – ou que você vá morar no Oriente Médio – onde ela é abundante. No meu caso, o encontro com a romã aconteceu pelas duas razões.

Uma brasileira comum, meu contato mais profundo com a fruta deve ter sido em viradas de ano, quando a gente come (ou guarda? esqueci.) as tais sementinhas, e nunca se sabe de onde elas vieram, quem as trouxe, como vieram parar em sua mão. E quase só. Mas ao atentar para seus efeitos benéficos à saúde e, sobretudo, quando nos damos conta de que sim, ela existe mesmo!, muito além da noite de São Silvestre, a curiosidade atiça o paladar e resolvemos fazer a tentativa.
A romã está para os turcos como a banana e o mamão papaia estão para os brasileiros. Não há desculpas para não incluir a frutinha estranha na lista de compras na quitanda por aqui. Ela faz parte da cultura local e é um dos símbolos nacionais turcos.

Sua forma e cor são divulgadas sem acanhamento; consumimos, antes com os olhos que com a boca, romãs que jamais fizeram parte de nosso imaginário. O visual que me conquistou trouxe romãs de cerâmica e vidro para a decoração da casa. Faltava, no entanto, encarar os mistérios vermelhos de suas cavidades e flagrar-me em delícias com a tal.

Resolvi aventurar-me, então, nas entranhas dos gomos. A aparente inacessibilidade à polpa intacta  levou-me à internet, oráculo das praticidades do dia-a-dia, a buscar maneiras de consumir a fruta sem que me pintasse toda de vermelho. Para meu deslumbre, a quantidade de tópicos abria um sem-fim de dicas, depoimentos, ilustrações e textos fotonovelescos relativos ao tema. Mesmo a grande dama da cozinha televisiva norte-americana Martha Stewart já produziu vídeo com tal abordagem.
Tentei de tudo. Não à toa, o tema parece incomodar muita gente; nada funcionou. Redecorei a cozinha, tingi a blusa, as pontas de meus dedos ficaram tão escuras quanto brincadeira com beterraba. Como primeira experiência, até não teria sido fracasso completo se uma considerável quantidade de açúcar não tivesse sido adicionada para que eu pudesse saborear o desafio. Estava amarga como meu ânimo. Foi em casa de ferreiro que logo eu, publicitária, aprendi que sabor de fruta não se mede por cor de fotografia, e sim com o canto do olho na quitanda: observar discretamente é sempre uma boa opção (em especial se o diálogo com o vendedor é improvável... meu turco ainda não chegou lá).

Conferida a atuação da vizinha, medida de segurança extra: fui novamente ao e-glossário. Minha observação parecia improvável mas estava correta. Procurei, então, romãs mais amarelas como meu sorriso de desilusão que vermelhas como em fotografia de publicidade, ainda que aquelas não parecessem tão apetitosas quanto essas. 

O frio, que já era intenso nessa época do ano, me rendeu uma expedição mais feliz – se não maior – que a anterior: coração de boi, apelido de manga brasileira, pega bem para a romã turca que conseguimos encontrar por aqui no invernão.
De volta à cozinha, encarando o inimigo, dei início à atividade diante do grande monstro rotundo rubro amarelado. Esqueci as dicas mirabolantes de apertar, bater com colher de pau, fazer saravá, e resolvi curtir a lambança que parece não ter jeito mesmo. A experiência, desse modo, revelou sua graça. Permite pensar na vida enquanto debulhamos aquela carne vegetal e vemos seu sangue sensual escorrer pelas mãos.  Tolera a falta de destreza, liberta o gesto, entorpece os dedos, desata o emaranhado, emancipa cada gomo. Faz a gente brincar com a comida, voltar a ser criança.

E depois? Depois... em meio à doçura toda, lambuzada, satisfeita, vencedora e feliz, me pergunto: no próximo réveillon, devo comer ou guardar as sementinhas?